Plebiscito e questões essenciais sendo ignoradas

Artigo publicado no jornal Diário da Manhã — 10 de julho de 2013

Wilder Morais

“O governo caiu das nuvens, mas ainda não conseguiu firmar os pés no chão. Continua operando no modo antigo, trabalhando com tentativas irrealistas de mudar de assunto e de compartilhar responsabilidades sem se concentrar na questão principal que emergiu das manifestações.”

As palavras do parágrafo anterior são da colunista Dora Kramer e foram publicadas ontem (9) em sua coluna em “O Estado de São Paulo”. Tais palavras, a meu ver, são muito precisas em seu propósito avaliativo das ações tomadas pela presidente Dilma após as manifestações populares, que aconteceram em todos os cantos do País.

Esse grito de descontentamento resultante das manifestações, vale reconhecer, é muito louvável, pois é uma prova de que o País está vivendo uma democracia sólida. Me sinto orgulhoso em ser parlamentar neste momento tão singular da história do País, pelo fato de as pessoas estarem tomando consciência da importância do engajamento político e consequentemente agindo em busca de mudanças.

Mais importante do que a presidente Dilma dizer que seu governo está atento às vozes democráticas das ruas, que exigem mudança, é ela promover essa mudança reivindicada, principalmente pelo fato de que está nas mãos da União o controle de um grande volume de recursos financeiros. Vale dizer que 72% das receitas advindas do bolo tributário arrecadado no País vão para os cofres do governo federal, enquanto os 28% restantes ficam para os municípios e estados.

O Brasil precisa de uma reforma política. Isso é inegável! No entanto, mais urgente que uma reforma política é o cumprimento das leis já existentes, mas principalmente a realização de políticas em setores essenciais (e de modo urgente), como saúde, educação, transporte urbano. Na verdade, esse grito que vem das ruas é o povo externando seu descontentamento com a falta de políticas públicas nos setores mencionados.

Esse grito das ruas é o povo exteriorizando o seu descontentamento com a falta de planejamento e a péssima gestão dos recursos públicos. Pelo Brasil afora há obras de grande importância econômica e social paralisadas, que é o caso da transposição do Rio São Francisco, conclusão da Ferrovia Norte-Sul, iniciada em 1987. As obras do novo aeroporto de Goiânia, por exemplo, foram interrompidas em 2007.

Falar em plebiscito a essa hora é dar as costas para os gritos da ruas. Eu não vi a população nas ruas gritando por plebiscito, por voto distrital ou misto. Não vi nenhuma manifestação para debater o financiamento público ou privado das campanhas políticas. Não vi ninguém protestar pelo fim das coligações.

Se o governo quer mesmo “firmar os pés no chão”, ele precisa dar aos estados e municípios mais condições para que eles possam investir na melhoria da qualidade de vida do povo. O governo precisa entender que é nos estados e cidades que o povo vive, que é lá que estão os problemas, que é lá que devem estar concentrados os recursos para atender os anseios do povo, externados nas manifestações.

As muitas obrigações que têm esses entes federados não são cumpridas; nem têm como, pois, para isso, precisariam de mais recursos. E estes estão em poder da União, que não abre mão da volumosa fatia do bolo da receita que entope seus cofres.